terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os Brazões S/T (RGE Discos, 1969)

[por Joe Strume]


Este eu quero muito em LP. E não é o caso de disco inédito em vinil.

Existe a edição original, mas custa o olho da cara. E teve uma reedição – selo inglês Thorns Backtrack Archive Series (2002), 180 gramas, porém tiragem limitada. Enfim, não é um disco fácil, e principalmente barato, de arrumar em vinil.


Lançado originalmente pela RGE, o LP é alvo de colecionadores das várias partes do mundo.


Um disco de fuzz, sem nada dever ao Blue Cheer.

Um disco tribal, que nada deve ao ROOTS.

O LP deixado pelo combo Os Brazões é de arrasar!


Killer Samba FUZZ Funk Groove – define algum vendedor em anúncio.

E foi justamente por meio do eBay que despertei de vez para Os Brazões. Assistindo ao LP por centena de doletas, pensava:

- mas o que será que tem neste disco pra ser tão caro?!


A dica já havia sido dada pelo Mark Arm, numa entrevista coletiva de 2005, quando veio ao Brasil como vocalista da turnê DKT/MC5. Quando perguntado sobre música brasileira, disse que curtia Os Brazões. Desde então resolvi atentar para aquilo do disco que agradaria ao Mark Arm, com base nos sons de suas bandas.


Hoje me parece evidente que a porção fuzz agradou bem.

No entanto este álbum tem mais.

É uma feijoada completa, suculenta e bem quente, com a combinação perfeita de temperos: samba roots, funk de entortar, fuzz do melhor, abusos de wah wah, pitada de sambalanço. Sem esquecer dos rituais africanos e da porção space.



Foto da contracapa


Dar nome ao som d’Os Brazões pode ser arriscado. Melhor será falar das músicas.


Então vem a primeira, Pega a voga cabeludo.

A percussão abre o disco, adiante a guitarra fritando, e o vocal começa – o combo está decolando! O percussionista é Mandrake, nome creditado como participação especial. Imagino que este sujeito tenha feito trabalho similar ao que vez o Carlinhos Brown no ROOTS.


Estamos em Canastra Real, um space jazz, com fuzz no talo mais adiante.

O clima espacial continua com Modulo Lunar - realmente a ida à lua mexeu com a cabeça das pessoas naquela época!

E a percussão rolando solta, quando surge a guitarra que vem, vai e nos leva junto!!


Tocando no assunto guitarra, o que dizer da penúltima do lado A, Tão longe de mim? Um turbilhão fuzz, um funkão incendiado.

Antes ouvimos Volks-volkswagen blue, a música que mais me chamava a atenção nas primeiras audições, quando saiu em CD pela Som Livre Masters (2005).

Certamente por estar dentre as faixas mais básicas do disco – pois, é interessante ressaltar, as músicas da banda têm partes, são “viajadas”, embora não tão grandes.


Momento B/8 começa parecidíssima com Viva Las Vegas e ensina a Elvis, com todo nosso respeito, como se faz um samba rock. A única instrumental do disco, um samba fuzz space, lição primorosa de uma banda calejada como apoio.



Reedição de 2002


Falando em samba rock, duas versões para músicas do repertório de Jorge Ben: Carolina, Carol, bela e Que maravilha. As músicas não perdem o balanço do mestre, ao mesmo tempo ganham a coisa roots d’Os Brazões.

Essas músicas também saíram num compacto simples de Jorge Bem, pela RGE, naquele mesmo 1969. No Brasil o single passou a atender por compacto simples.


E assim sendo Os Brazões gravaram as músicas fresquinhas, na mesma época de Jorge Ben. São as faixas que fecham os dois lados do disco.

Sim, estou sugerindo que elas ocuparam esses lugares por se tratarem de regravações. Opa, perae! Das 12 músicas, 11 são de outros!!


O Dioguera, imaginando quem seria o compositor de Pega a voga cabeludo:

- Gilberto Gil, Jorge Ben, só pode ser por aí...

E sobre Carolina, Carol, bela:

- Poderia ser o Trio Mocotó tocando esta música!


É fundamental perceber que Os Brazões foram, de fato, o grupo que acompanhou Tom Zé em duas músicas de seu primeiro LP. Foram também a banda de apoio de Gal Costa numa temporada de shows.

Mas tão importante quanto é notar que eram mais que isso, uma banda da pesada!


Daí as versões únicas, deles, para músicas dos outros.

E o resultado foi o disco homônimo, uma varrida no repertório de Gilberto Gil, Jards Macalé, Tom Zé e até daquela banda experimental do Hermeto Pascoal (Brazilian Octopus). Além dos nomes menos conhecidos, como Lais Marques, que assina duas músicas.


Na faixa Feitiço, a primeira do lado B, Os Brazões enxertam fuzz na peça de Tom Zé. Esta certamente fez Mark Arm se lembrar de Jimi Hendrix.

Planador retoma o climão space que permeia o disco.

Alguém pode imaginar Lee Perry produzindo Os Brazões?




LP Assim Assado (CID, 1974)


Expiral é a única música assinada pela banda.

Ou melhor, por Miguel de Deus, o conhecido vocalista/guitarrista d’Os Brazões, que nos anos 70 lançou pelo menos dois outros discos de arromba: o Assim Assado, projeto inspirado nos Secos e Molhados, e seu LP solo de 77, com pauladas funkeadas e instrumentais.

Nesta música, o fuzz se mistura aos metais - e o pau quebra!


Em Gothan city, a mesma regravada pelo Camisa de Vênus nos anos 80, o refrão de Jards Macalé é acompanhado de feixes fuzz...

Eu insisto: alguém aí consegue conceber Lee Perry produzindo Os Brazões?


Outro dia Waltinho d’A Discolândia me confirmou que o público consumidor de LPs, especialmente nos idos 70, era constituído por pessoas de maior poder aquisitivo. E esses LPs eram mais de MPB.

Daí fico pensando qual seria o público d’Os Brazões...

Talvez fossem MPB demais para a Jovem Guarda.

Ou seria fuzz demais para a MPB?


O fato é que o LP não teve grandes vendas, justificando hoje a raridade da edição original. Embora Nelson Motta anunciasse na contracapa que Os Brazões “têm um longo caminho pela frente”, a trajetória da banda acabou sendo “um caminho cheio de luzes estranhas e do imprevisto mais claro” – para usar palavras do mesmo.



LP Black Soul Brothers

(Underground, 1977)



Mas numa coisa estamos de acordo: Os Brazões neste LP voaram tão alto quanto os Mutantes. Então que a justiça seja feita: que tal uma segunda edição 180 gramas, para desinflacionar o mercado?!


PS: há tempos procuro a música d’Os Brazões trilha do filme Como era boa nossa empregada, que passava no Cine Brasil TV - aquele canal de filmes nacionais antigos. A música não está no LP e seu refrão diz algo como “meu filho toma vergonha (...) e a moral!!”.

Alguém precisa salvar esta música! Dispor nem que seja numa coletânea virtual.







1 comentários:

  1. pô, falei tanto som da banda que esqueci de dar os créditos para a própria banda :-o
    Aí vão:

    Miguel de Deus - vocals, guitarra ritmo e arranjos
    Roberto - vocals, guitarra líder e arranjos
    Taco - vocals, baixo e arranjos
    Eduardo - bateria e arranjos
    Mandrake* - percussão

    * participação especial

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